Como falar no assunto a crianças tão pequenas? O que fazer quando o nosso caminho se cruza diretamente com ele? Normalmente escuto, deixo as ideias fluir e as palavras surgir, sem preparações prévias, nem conclusões feitas por antecipação. Deixo-me guiar pelo momento e sigo o coração e a intuição.
Mas porquê este tema no Jardim de infância? Bom, desta vez porque aconteceu ali, mesmo à nossa frente.
Vou-vos contar...
Como todos sabem, nós temos dois mandarins na nossa sala, a Luna e o Óscar. E também sabem que eles gostam muito um do outro e que se fartam de namorar...
Namoro de pássaro, já se vê...
Ora, deste namoro, surgiram três ovinhos muito pequeninos...
...postos pela Luna e muito bem cuidados pelo pai e por ela, a mãe...
E com muito cuidado, nós fomos observando e registando tudo o que estava a acontecer. E na segunda feira... Na segunda feira ouvimos um grande barulho e vimos muitas cascas de ovo no fundo da gaiola. Percebemos logo que tinha nascido um dos passarinhos. Ficamos tão felizes! E nem fomos lá para o pé para não os perturbar. É que nós já estamos a ficar crescidos e já conseguimos muito bem fazer aquilo que é preciso, mesmo quando não nos apetece.
Na hora do almoço, quando a Goretti foi ao gabinete tirar a bata, viu... Pois foi isso mesmo... Viu o passarinho bebé no fundo da gaiola. Ele tinha morrido e os pais deitaram-no para fora do ninho. O que fazer?
- Deitamo-lo fora e dizemos que nos enganámos e que não nasceu passarinho nenhum. Foi o primeiro pensamento que nos ocorreu. Mas depois...
Depois pensámos melhor... Sim, o passarinho tinha morrido e por muito triste e dura que fosse a realidade, esta é a ordem natural das coisas. Todos os seres vivos nascem e morrem. Toda a vida é um ciclo que tem um começo e um fim. Por vezes é um ciclo longo e por vezes, como neste caso, é um ciclo muito pequeno. Por isso, fui buscar a caixa lupa e coloquei o passarinho lá dentro e, quem quis, pode observá-lo. Garanto-vos que foram imensos e alguns não se limitaram a olhar, mas fizeram muitas perguntas, com muita lógica. Conseguimos ver os olhos, o bico, as patinhas, as asas e até algumas penas (penugem). Eles estavam fascinados...
Depois deitámo-lo numa caixinha de cartão e fomos enterrá-lo no jardim, para que se transforme em alimento para as outros seres vivos.
E assim se fechou o ciclo desta vida...
Mas história não acabou por aqui. E as perguntas chegaram...
- Porque é que ele morreu, se ainda era tão novo?
- Porque é que não teve tempo de crescer?
Fiquei atrapalhada... Acabei por dar uma daquelas respostas pré fabricadas e disse-lhes que certamente tinha alguma doença ou qualquer coisa assim que não o deixou viver...
E como não podia deixar de ser, o desastre da resposta pré fabricada, foi completo..
- Então isso quer dizer que, quando ficamos doentes, podemos morrer?
E agora como sair daqui? - Perguntei-me em pânico.
Salvou-me o Afonso Rodrigues (ainda bem que eles andam sempre por perto...) que respondeu prontamente que tinha visto um episódio de "Era uma vez a vida", em que tinha aprendido que no nosso sangue há uns "globus" brancos que são os sentinelas do corpo e nos salvam dos vírus e dos "mircóbios". E foi mais longe ao explicar que o passarinho deve ter morrido porque era muito pequenino e os "globus" brancos ainda não estavam a funcionar muito bem.
A resposta parecia estar muito certa e contentou os colegas... Uffff... Que alívio!
E agora... Agora temos andado a pesquisar. Hoje vimos o episódio de que o Afonso falou e consultámos muitos livros. Os "globus" brancos estão na ordem do dia e sabe-se lá até onde é que isto nos pode levar...
Fiz bem? Fiz mal? Ainda não sei. Já estou farta de pensar sobre o assunto e ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Teria sido mais fácil tirar o passarinho da gaiola e deitá-lo fora sem dizer nada, mas teríamos perdido uma belíssima ocasião de experimentar a vida num dos seus aspetos mais duros e mais difíceis de ultrapassar, mas também um daqueles com que todos nós, mais cedo ou mais tarde, durante a nossa vida, nos vamos deparar...

















