sexta-feira, 19 de julho de 2019

Foram tempos de mudança...


Faz hoje 50 anos que o homem chegou à lua. 
Faz hoje 50 anos que fiz a minha primeira noitada. 
Faz hoje 50 anos que o mundo da tecnologia chegou a minha casa porque, para poder ver a chegada do homem à lua, comprou-se uma televisão. 
Faz hoje 50 anos que a minha casa, até aí apenas ligada à vida na aldeia, escancarou a janela e, mesmo implantada num caminho de terra e pedras sem vestígio de alcatrão, lá bem na ponta da aldeia, abriu as portas ao mundo. 
Faz hoje 50 anos que a minha vida mudou para sempre… A tecnologia entrou em minha casa.
Passámos a noite acordados. Grande aventura e excitação para uma miúda de treze anos que se deitava sempre às 21.30h, porque o liceu era a 30 km de casa e era preciso acordar cedo para lá chegar a horas. Estar acordada até o homem pisar a lua, foi ser admitida no mundo dos adultos, foi ser considerada crescida. E não dormi. Nem eu, nem a minha mãe nem uma das minhas irmãs. Esperámos, resistentes e com a missão de acordar quem tivesse adormecido.
Era madrugada quando Neil Armstrong desceu da cápsula lunar, com o seu fato de astronauta e as suas botas gigantes. É disso que me lembro; disso, dos saltos gigantes que tanto invejei e que tanto me fizeram sonhar, disso e do facto de ser de madrugada em Portugal e de, na lua, ser de dia e haver luz, disso e também das lágrimas comovidas da minha mãe… 
“Que é isso rapariga?”, perguntou o meu pai pouco habituado a lágrimas. 
“É que o mundo hoje mudou para sempre. Nada mais será como antes”, respondeu a minha mãe. Tinha toda a razão. A partir daí começou a estranheza. Os homens da aldeia, que até aí, ao fim da tarde, na leitaria do Sr. António, conversavam prazenteiros e descontraídos em frente a uma caneca de café de cevada, passaram a discutir acirrados e ardorosos, divididos em crentes e não crentes do grande feito do Homem: “Uma maravilha”, diziam uns. “Coisa do demo”, diziam outros.  E tudo na aldeia mudou. Desde esse dia, todos os animais nascidos na aldeia deixaram de se chamar “catitas", "tarecos", "bobbys", "estrelas" ou "galhardos” para passarem a ser “Apolo XI”, “sputnik”, “foguetão” "laika" ou “lua”, tudo para que aquela data não fosse esquecida. E as mulheres quando à segunda feira iam ao rio lavar a roupa, à força de comentarem as "modernices" e "sem vergonhices" dos tempos que corriam, descuravam a vigilância sobre nós o que nos permitia algumas aventuras proibidas. Tudo isto em pleno verão de 1969. Eram tempos de mudança.
"É um pequeno passo para o homem, mas é um passo gigante para a humanidade" comentou Neil Armstrong ao pisar o solo lunar. Sem dúvida alguma uma verdade indiscutível!
A  vida nunca mais foi como era antes...


sábado, 13 de julho de 2019

Conversas com a escola; Esta escola que eu amo...


Estou abismada com o rumo que leva a educação nestes nossos dias. Estou abismada e pouco feliz. Eu, que vivo na escola há 56 anos, primeiro como aluna, depois como professora e que sempre gostei de lá estar, estou abismada…
Desiludam-se aqueles que pensam que hoje vou dizer mal da escola ou da educação, pois isso seria, de todo, impossível. Ninguém pode dizer mal da sua paixão, mas mesmo apaixonada, não sou cega e por isso mantenho este meu estado de inquietação e tenho um montão de interrogações para as quais ainda não encontrei resposta. Estamos no sec. XXI, num tempo em que tudo é efémero e em que “inovar” está na ordem do dia. Por todo o lado se ouvem palavras caras, muitas vezes despropositadas e enfiadas à força no discurso,  e assistir a um telejornal em qualquer canal de televisão, é arriscar-se a ouvir uma torrente de desgraças, de ideias loucas e desorganizadas, de palavras mal pronunciadas, como “numaro” em vez de número, ou  ser bombardeado por palavras  caras e muitas vezes inapropriadas à ocasião,  como a pobre da palavra “elencar” que tão depressa sai da boca de um político, como de um futebolista, os únicos que, verdade seja dita, parecem ter lugar  nos nossos meios de comunicação, como se hoje, neste país de grandes homens, não existissem outros interesses. Às vezes fico tão baralhada com o que oiço que, se não fosse pelo ecrán, até poderia pensar que estava de volta aos exageros linguísticos e pouco reais do sec XVII.
Mas voltemos à escola… “Muita parra e pouca uva” diria, com a sua voz pausada e doce, o meu pai que era jardineiro. Muita inovação, muita matéria, muita exigência aos professores, muito papelinho e… Alunos desinteressados, pais preocupados (pena que nem sempre seja com o bem estar, a aprendizagem e o futuro dos filhos), professores desmotivados e exaustos numa escola que não sabe valorizar ninguém, mas que continua convencida que está no bom caminho, embora mude as regras todos os dias e não consiga indicar rumos retos e corretos, (maldito acordo ortográfico), simplesmente porque ela própria não sabe por e para onde vai.
Temos meninos peritos em tudo o que seja liso, dê luz e os transporte para mundos irreais. Temos meninos que, desde muito pequenos, são viciados e doutorados em toda a espécie de ecrán, mas completamente inaptos para a vida e sem qualquer regra de vida prática. Temos meninos grandes em tamanho, que aos nove anos já calçam uns ténis número 39, mas que não os  conseguem apertar e por vezes ainda os calçam “ao contrário”, que não sabem estar à mesa, que não conseguem comer de faca e garfo e que, muitas vezes chegam à escola sem saber que, antes de se sentarem à mesa, devem lavar as mãos. Muitos nem nunca se sentaram à mesa… estamos a inovar ou não?
Passemos então à palavra “Inovar”, outra palavra massacrada nos dias que correm. Ainda falta o empreendedorismo… ai que vontade de voltar à pré história, em que tudo era simples e tudo o que se precisava para viver, era de umas boas pernas, uns bons músculos e uma moca muito grande...
Então e afinal o que é “Inovar”? O dicionário diz que: Inovar -  i·no·var - (latim innovo, are, renovar) é um verbo transitivo que significa: Introduzir novidades em. ,  renovar; inventar; criar. E hoje, há inovação na escola? Será que para inovar basta usar e usufruir das novas tecnologias? As nossas crianças “Inovam” alguma coisa, quando estão agarradas a um écran dias a fio, quando o ecran é a sua vida? É por isso que, na nossa sala, se faz uso das TIC “qb”, mas também se desenha, se pinta, se canta, se ri, se chora, se costura, se cozinha, se experimenta, se observa, se cuida, se brinca ao ar livre, se mexe na terra, se catam bichinhos, se aprende a subir às árvores, se cria e se aprende, acima de tudo, que não somos os únicos a viver neste belo planeta que é a nossa Terra, que temos que viver em sociedade e aprender a respeitar e amar todas as formas de vida, todas as criaturas. Tenho 63 anos e estou na escola desde os seis anos. A escola é a minha vida e nem sequer acho que “no meu tempo é que era bom”, pois não tenho saudades de andar aos magotes, de ter que ser igual a todos, de andar de bata branca quer chovesse ou fizesse sol, de usar soquetes brancos com frio ou com 40 graus, de ter que usar tranças até aos 18 anos, de não poder rir alto nos compridos corredores do liceu onde, ouvir o eco das nossas gargalhadas era tão bom, nem de estar no liceu como se fosse uma monja contemplativa. Não tenho saudades dos exames, do tempo de aula em que tinha que ficar sentada “direitinha como um fuso” e em que se “pensasse um bocadinho em voz alta”, hábito que ainda hoje mantenho, mesmo que pensasse sem som, bastava mexer os lábios para “ir para a rua” e ter uma falta por mau comportamento e eu, que vindo da classe trabalhadora, de uma casa cheia de filhos e com parcos recursos,  precisava de ter sempre um bom comportamento e bons resultados escolares para assim poder prosseguir nos estudos e poder concretizar o sonho de vida dos meus pais que era o  de dar a cada um dos seus filhos, a possibilidade de ter uma vida melhor, de tirar um curso. No entanto tenho saudades da ordem que havia na escola, do respeito de uns para com os outros, da calma e por vezes até do silêncio, do cuidado que os professores e os “contínuos” (hoje assistentes operacionais) tinham connosco, do modo como nos ajudavam nas dificuldades, se alegravam com os nossos sucessos, como nos incentivavam a ir sempre mais longe, a procurar o saber e a aprender sempre mais. A escola era um lugar seguro, organizado, ordenado, onde tudo corria sobre rodas e onde nada de mal nos podia acontecer.  Também tenho muitas saudades de algumas aulas, como por exemplo, das aulas dadas por um dos meus professores  de geografia com quem aprendi a viajar sem bilhete, apenas com a ajuda de um atlas, ou de um mapa e dos livros, ou das aulas da professora de inglês que em levou a conhecer Londres como a palma da minha mão, ou da de Francês que me introduziu Paris mesmo sem nunca lá ter ido, ou das aulas da Professora Liberata, o velho dragão da escola, que lecionava Português, a quem a vida tinha tirado o sorriso do rosto, mas que se transformava completamente quando viajava pela selecta literária (desta vez tenho mesmo que esquecer o acordo ortográfico que seleta sem c não me parece a minha) e nos arrastava pelos autores portugueses como quem viaja sem tempo e num espaço infinito, ou até da professora de ciências que, sem nos massacrar com a poupança da água, com a reciclagem, com a desgraça da natureza falida e sem nos impor a consciência ambiental, nos ensinava a amar e respeitar todos os seres vivos que connosco coabitam na terra e nos mostrava a grandiosidade de viver neste nosso abençoado planeta, neste nosso maravilhoso universo. Foi com eles que ganhei o meu gosto pelas viagens, não só de avião ou de autocarro, mas através dos livros. Foi com eles que me tornei uma leitora incansável, uma devoradora de livros, uma viajante sem limites, nem barreiras. É esta escola que me fascina e me atrai, a escola dos livros, a escola da vida. E que me desculpem os aficionados das novas tecnologias, mas a tecnologia não é tudo. Inovar é recriar e para recriar é preciso ser-se criativo, conhecedor de si próprio, seguro de si, dos outros e do mundo que nos rodeia, ser inteiro, leal, correto consigo e com os outros, respeitador e isso só se consegue com amor, com cuidado, com educação e não bastam as tecnologias e a inovação. Sebastião da Gama, no seu diário, escrevia: “O que eu quero, sobretudo, é que eles sejam felizes”. E para ser feliz não se pode crescer “à solta” como as galinhas. Para ser feliz é preciso crescer bem, crescer seguro e saber-se amado. Por isso, menina escola, a quem amo quase tanto como a vida, deixe-se de “inovações” e de “empreendedorismos”, deixe-se de loucuras e de mudanças constantes e ponha os pés no chão. Aproveite as coisas boas que o sec. XXI nos trouxe e comece a formar Homens que podem e devem fazer uso da tecnologia, mas que, acima de tudo, estão aptos a viver em sociedade, a criar, amar, a respeitar e a construir este nosso querido e desde sempre tão desejado, mundo novo.