sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Passo a passo vamos conquistando os nossos dias...

Os dias vão passando e o grupo vai-se delineando, mas tem sido muito difícil e duro para mim e para a maioria das crianças. Sendo um grupo onde os rapazes predominam, é por natureza agitado, barulhento e conflituoso. Claro que nem todos os rapazes são assim, felizmente, mas basta haver duas ou três crianças agitadas para que todo o grupo se transforme e até as brincadeiras no recreio se tornaram agitadas e perigosas. É pena... Muita pena que duas ou três crianças a quem nunca foram impostas regras nem limites e que portanto foram crescendo sozinhos, sujeitem um grupo inteiro aos seus caprichos e falta de educação. Porque depois o que acontece é que o adulto que está encarregado de os guardar, porque é isso que acontece este ano, pois estamos no início de Novembro e eu ainda apenas consegui guardar, tem que tomar medidas drásticas, e uma postura autoritária para conseguir evitar acidentes e ensinar a "estar" em grupo bem como as regras básicas da vida, aquelas regras que compete aos pais ensinar, uma vez que na sala ainda há algumas crianças, cujo autocontrolo e o respeito pelo outro e por si próprio nunca foi treinado, nem sequer experimentado. E as actividades preparadas, por mais estimulantes que sejam, perdem-se completamente na excitação e na falta de interesse e de atenção de algumas das crianças. Eu sei que os tempos não são faceis, que os pais estão muito ocupados, mas têm mesmo que começar seriamente a pensar naquilo que querem para os vossos filhos. Felizmente que a maioria das crianças é interessada e educada e nessas até já se nota alguma evolução. De qualquer forma é impossível pensar em pôr em prática qualquer tipo de atividade diferente. É impossível pensar em festejar os dia das bruxas ou em pedir o pão por Deus, enquanto houver crianças que em Novembro ainda fazem birras à entrada da sala porque não querem vestir a bata, e encarregados de educação que "tentem a MEDO" convencê-los, com mentiras, que têm que o fazer. Não há que convencer... A bata é para vestir e pronto. Não há argumento que uma criança de quatro anos possa impor ao adulto em relação a isso e a outras regras criadas em conjunto por todos nós. É uma regra e as regras são para cumprir. Ou os adultos pensam que os vossos filhos vão passar a vida inteira sem cumprir regras? Todos nós cumprimos regras básicas para viver em sociedade e é em criança que isto se aprende. E que me desculpem estas palavras duras, os pais que educam os seus filhos, pais esses que felizmente,aqui na sala,ainda são uma maioria. Ontem o dia foi muito difícil. Atingiu o auge. Não é possível ser pior. E eu também atingi o meu limite. Porém a partir de ontem virámos a página, e as crianças a quem nunca é dito um não, a quem nunca foi imposto um limite, que cresceram como se fossem únicos e portanto não estão preparados para viver em sociedade, a partir de hoje vão deixar de poder estar todo o dia a aborrecer os outros. A sala vai avançar com o seu plano e rumo aos objetivos traçados. Vamos avançar com um mês de atraso, mas vamos avançar. E acabou-se o compasso de espera e a tentativa de integrar estes meninos na turma e os tornar uma turma compacta e coesa. Não podemos deixar o grupo inteiro ficar refém de algumas crianças, cujos pais se recusam a ser pais ou se esquecem de que são pais e de qual é que é a sua função e papel como pais em relação aos seus filhos e vamos avançar. A partir de hoje, os meninos vão levar diariamente para casa a avaliação do seu desempenho no grupo e do modo como cumpriram as regras da sala e de como executaram as tarefas propostas. E os meninos que até ontem se movimentaram no grupo onde estão inseridos como se fossem únicos,como se todo o grupo tivesse que se reger segundo os seus caprichos e desejos, vão deixar de poder brincar e vão ter que descansar na escola o que não descansam em casa, vão ter que pensar, e vão trabalhar em dobro até conseguirem aprender a estar com os seus pares e a ser construtores desta pequena sociedade que é a nossa sala de aula. Ontem, através de um encarregado de educação, recebi um texto que parece vir mesmo a proposito. Deixo-o aqui... É triste pensar que uma coisa destas foi escrita, mas a verdade á que, infelizmente se aplica a muita, muita gente. A mudança está nas nossas mãos... 10 REGRAS PARA CRIAR FILHOS.... DELINQUENTES 1ª Comecem cedo a dar ao vosso filho tudo o que ele quer. Assim ele convencer-se-á, quando crescer, de que o mundo tem obrigação de satisfazer todos os seus caprichos. 2ª Se, enquanto pequeno, o vosso filho utilizar expressões grosseiras, achem-lhe graça. Isso fará com que ele se convença de que é espirituoso e levá-lo-á a refinar a sua linguagem… 3ª Não lhe dêem educação nem princípios morais. Esperem pela sua maioridade para que, feitos os 18 anos, seja ele a fazer pessoalmente a sua escolha. 4ª Evitem recriminá-lo, para que ele não crie um complexo de culpa. Estes complexos, como toda a gente sabe, não deixam que as crianças desenvolvam a sua personalidade. 5ª Façam sempre tudo aquilo que devia ser o vosso filho a fazer. Arrumem as suas coisas e apanhem o que ele deitar para o chão. Desta maneira se habituará a empurrar para os outros as suas responsabilidades. 6ª Deixem que o vosso filho leia e veja tudo o que lhe vá parar às mãos. Tenham o maior cuidado em esterilizar os talheres, os pratos e os copos, mas deixem que o seu espírito se alimente de imundices. 7ª Discutam e zanguem-se em frente dele. Isso é muito útil para que ele se convença de que a família é uma instituição nociva e de que não deve qualquer respeito aos seus pais. 8ª Dêem-lhe todo o dinheiro que ele quiser. Evitem que ele o ganhe com o seu trabalho ou através do seu comportamento. Continuem a pensar que tem tempo e que tem que ser feliz enquanto é jovem. 9ª Satisfaçam todas as suas exigências ou caprichos, no que se refere a alimentação, vestuário e conforto, a fim de que o vosso filho não possa nunca sentir-se frustrado. As frustrações, como se sabe, não permitem que a personalidade se revele e torna as pessoas mais infelizes. 10ª Defendam sempre o vosso filho! Dos seus amigos, dos vizinhos, dos professores e até -principalmente - da polícia. É tudo gente desprezível que apenas pretende embirrar com ele... (Adaptação de um panfleto da Polícia de Houston, Texas, distribuído há alguns anos a todos os habitantes da cidade)

17 comentários:

Alda disse...

Grande Luz. É assim mesmo as coisas são como são, é preciso dizê-las com frontalidade. Adorei o texto. Vou partilhá-lo, posso? Beijinhos e muita forças

Galega Encarnada disse...

Olá, Marialuz
Dou os parabéns pela escrita e pelo conteúdo do mesmo. Bem escrito, frontal e que retrata o tempo de agora de muitas salas de JI e da minha também. A minha realidade está aí retratada e, se me permites, e penso que sim, vou divulgar este texto.

Bjs,
Leonor

Xinha disse...

Luz, tens toda a razão em estar zangada...zangada por teres por teres de ter o resultado de pais que não o são, apenas têm filhos, o que é muito diferente...zangada por teres de ser tu a substituir esses pais...zangada por estarem a prejudicar as outras crianças...zangada por te impedirem de realizar o teu excelente trabalho, zangada por te impedirem de seres tu própria.
É uma pena que seja assim...apesar disso vais conseguir dar a volta à situação.
Beijinhos grandes da Xinha.

M. Jesus Sousa (Juca) disse...

Luz,

Infelizmente quase todos nós, profissionais de Educação, já passamos por uma ou outra experiência deste género.
Por isso não é difícil revermo-nos nesta tua descrição tão autêntica e sincera...
Pais assim há-os por todo o lado...
Profissionais como tu é que não há muitos, antes houvesse.
Fizeste o que tinha que ser feito e disseste o que tinha que ser dito. Um dia mais tarde, tenho a certeza que, se forem/vierem a ser pessoas de bem, pais e filhos te agradecerão.
Entretanto, força.
E também firmeza alternada com carinho, para que consigam aprender aquilo que nunca lhes foi ensinado.

Acredito que, um dia destes, estarás a contar-nos como começam a brilhar essas estrelinhas...

Bjs, Juca e Sala Fixe

Gabriela disse...

Olá Luz, por vezes é em dias cinzentos que encontramos inspiração para dar "aquela volta". Imagino que te sintas triste e com alguma revolta , mas tudo passa. Admiro a tua capacidade de deitares cá para fora todo esse sentir...trabalhamos que nem umas "desalmadas" e bastam dois ou três para fazerem andar tudo num "virote".Tenho a certeza que tudo vai "recomeçar" doutra forma. Tantas vezes que primeiro deveriam ser os pais a ser educados...mas nós somos apenas educadoras de infância. Beijinhos, bom fim de semana e tudo a correr pelo melhor

Luísa Campos disse...

este blogue é muito interessante...e muito fofo.
mosta conhecimento e bom gosto da parte de quem o organiza.
Luísa

sorrisos disse...

Olá Luz
Parabéns pela coragem e frontalidade em relatar esta verdade nua e crua. A criança é o reflexo da família onde iniciou o seu processo de socialização (???????). Será que iniciou?
Um bjo

Moinho de Vento disse...

Cara Luz,
Só agora, por intermédio da Juca tive acesso a este teu texto.
Começo, antes de mais, por valorizá-lo como expressão de muitos profissionais (de educação e não só) que, diariamente, enfrentam a ingrata tarefa de "educar" filhos de outros.
Em quase toda a sua extensão refere, e de forma clara, algumas das "questões" fundamentais do estado a que temos deixado chegar a "educação". E, permite-me dizê-lo, a "culpa" não é apenas dos "pais" (esses infames que, possivelmente nem serão professores!). Na realidade, a culpa é de todos nós. E, ainda mais culpados temos sido nós, que, a coberto de ordens , indicações e orientações estapafúrdias temos contribuído para um total desfazamento entre o que a Escola devia ser e o que, na realidade, é!
Fomos deixando de ser educadores em exclusivo porque nos pediram que fossemos assistentes sociais, psicólogos, médicos, advogados, gestores...
Foram-nos pedindo que "cuidássemos" em vez de instruir e formar, foram-nos pedindo que "desculpássemos" em vez de orientarmos e responsabilizarmos. Foram-nos pedindo que "perdoássemos" em fez de nos fazermos respeitar!
E nós fomos admitindo os pedidos. Uns atrás de outros.
A culpa da situação a que chegámos é, na realidade, nossa. De todos nós.
Daqueles que, nas reuniões se "esquivam" a refletir educação e que, dessa forma, abrem a porta a que outros, sem qualquer tipo de fundamentação (ou sequer conhecimento!) imponham formas de fazer completamente desadequadas e irrealistas;
Daqueles que, dando primazia a questões "românticas" da educação concebem uma Escola impossível de concretizar;
Daqueles que, de forma irresponsável, se "aproveitam" da bondade e sensatez dos verdadeiros profissionais.
E fomos nós (somos nós!), diariamente, ao negarmos o nosso direito e autonomia a sermos gestores do currículo (a legislação é claríssima, quanto a isto!) que temos, também, contribuído para este estado de coisas.
Os nossos alunos de hoje são, em alguns casos, filhos de alunos que já nos passaram pelas mãos, e, ao "culpar" os pais, acabamos por nos culparmos a nós próprios. Pois todos somos produto da educação que temos vindo a fornecer.
Estou contigo, Luz. Também eu estou farto de um conjunto (enorme!) de coisas que me andam a retirar o prazer de fazer o que sinto fazer bem. Mas, em relação a disciplina, em relação ao respeito pelo meu trabalho, em relação ao respeito pela instituição escolar, não permito, pura e simplesmente, que me pisem.
E não há de ser um qualquer Diretor a dizer-me que não devo!
Um abraço de carinho e apoio!
Henrique

rosarinho disse...

Olá Luz, tenho a certeza que vais dar a volta a esta situação problemática e fazer entender a estas crianças e seus pais que há uma regra básica de vida em sociidade"Não faças aos outros o que não queres que te façam" e que todos os atos tèm as suas conseqùências.
Com afeto,traçando regras e limites e fazendo o que eu chamo"escola de pais", em breve essas estrelinhas estarão a brilhar na tua constelação. Obrigada pela partilha e muita força! Um beijinho,
Rosarinho

Ana C. disse...

Olá colega, tomei conhecimento do seu blog através da Juca e revejo-me neste seu post. Este ano também tenho um grupo muito indisciplinado por razão de 3 crianças que não conhecem regras nem limites e que por copia vão levando as outras a fazer aquilo que não devem tornando o trabalho quase imposivel.Por isso aqui fica a minha solidariedade e esperemos que as coisas melhorem para ambas... Uma beijoca e força da Cristina

Maria da Luz Borges disse...

Muito obrigado, amigos por todo o apoio. É bom saber que não é só comigo... Já estava a ficar "traumatizada":)
Henrique tens razão. Muitos destes pais poderiam ter sido meus alunos :). realmente há mesmo que repensar a educação, mas por educadores, por aqueles que ~lá estão, todos os dias.
Atrás de dias dias vêm, e eu não vou baixar os braços... Este grupo, quer queir quer não, vai tomar forma e dar o seu melhor...

Cristina Lares disse...

Força minha amiga!!
Felizmente, este ano, não me revejo neste texto, mas há dois anos atrás se bem te lembras, passei por uma situação semelhante. Custou a passar...muito...cheguei a criar "uma escola para pais"...saiu-me do pêlo (e de que maneira)!!
Mas, tenho a certeza que com toda essa Luz e energia vais conseguir dar a volta.Beijinhos

Lúcia Curopos disse...

Olá Maria da luz,
Como eu entendo essas suas preocupações ....São situações que provocam um stress imenso e que nos desgastam...Há alguns anos tive uma situação semelhante e foi um ano muito complicado. Isto porque nunca consegui mudar a forma de estar e educar daquela família.Felizmente todos os outros pais eram fantásticos e muito cooperantes.... Mas dias melhores vieram... Temos de ter fé que a nossa perseverança e o nosso empenho vá deixando marcas e provocando a mudança....
Beijinhos e continuação de bom trabalho

O meu Ser! disse...

Fico triste de saber a sua angustia!! e tudo por causa de certos pais que não sabem ou não querem saber de como educar um filho. Educar não é só levá-lo à escola, dar-lhe de comer e vesti-lo!!! Educar é transmitir valores, é fazê-los entender o que tudo isto custa ( o comer que está na mesa, a roupa que vestem...)Educar é ensiná-los a respeitar o próximo, educar é transmitir regras... esse é o verdadeiro papel dos pais. A familia serve para educar e a escola para ensinar.
Fico triste por constatar que hoje em dia têm filhos por puro capricho, ou porque os amigos também têm!!!! Têm as suas vidas preenchidas pela carreira profissional, pelos jantares com amigos e por tudo o resto, sem que se lembrem que têm filhos que precisam deles de atenção e de tempo,em vez disto são entregues às escolas, aos ATL'S, aos Avós, às tias, às vizinhas... e depois ainda dizem que adoram os filhos!!!
Vivem vidas de fachada, pobres e desprovidas de tudo...
Tantas vezes que me pergunto, onde estou a falhar???? e tenho dois filhos incriveis, educados, e que conhecem as regras.
Será que esses pais alguma vez equacionaram a forma de tratamento com o(s) filho(s)??????!!!!

Beijinho grande Maria da Luz e pode contar conosco ;-)

Maria da Luz Borges disse...

Obrigado mãe da INês Almeida, eu sei que posso contar convosco, e isso é mesmo muito bom!

Maria da Luz Borges disse...

Obrigado Cristina e Lucia... É bom saber que não sou caso único ":)...
ou :( "

Ana Peixoto disse...

Professora, Maria da Luz,

Fico muito triste por saber a sua angústia.

Pena certos pais não compreenderem, que a escola NÃO é um depósito.

Pode contar comigo.

Beijinho,
Ana Peixoto(Mãe do João António).