sexta-feira, 26 de outubro de 2012

"Raposa que dorme, não caça galinhas"

Pois aqui está um ditado muito verdadeiro em educação... Se nos deitamos a dormir e se nos distraímos, se não estamos atentos a cada momento e se não abraçamos cada momento com verdade, corremos o risco de mascarar as coisas, de pintar a vida cor de rosa e de tornar tudo monótono, sem cor e sem vida. E na vida nem tudo são rosas... o dia de ontem obrigou-me a fazer uma pausa e a pensar... Obrigou-me também a traçar prioridades, a repensar objetivos e a refazer estratégias... Obrigou-me também a fazer algumas coisas com que nunca concordei, mas como "quem não tem cão, caça com gato", tive que deixar posições e ideias de lado e que me adaptar à realidade que, tal como já disse não tem sido fácil, mas que me recuso a ignorar ou a deixar correr. Se o meu papel de raposa é calçar galinhas, ainda que não goste muito de frango, vou à caça! O dia de ontem foi complicado, mas as crianças merecem que eu não desista de caçar... Por isso, talvez porque estou preocupada e isso tira-me o sono, levei a noite a pensar. É verdade que há crianças que perturbam, e muito... É verdade que há crianças que não respeitam os pares, os adultos, nem a si próprios... É verdade que há pais que se esquecem que a sua função de pais é educar e ajudar a crescer plenamente e não o fazem. Mas todos, sem exceção são crianças, bem ou mal educadas, mas acima de tudo crianças. E qual é o meu primeiro objetivo? O meu primeiro objetivo é que cresçam felizes e desenvolvam plenamente as suas capacidades e esse é um objetivo holístico, que tem que abranger todas, mas mesmo todas as crianças da sala. Portanto, pensei, pensei e, para já, implantei três medidas: 1 - Mesmo detestando criei um mapa de autocontrolo e diariamente, ao fim do dia, em conversa de grande grupo, avaliamos o comportamento e desempenho de cada um ao nível da socialização, do respeito por si, pelos pares e pelos adultos, das regras básicas de boa educação e conduta. Este mapa vai para casa diariamente. Já o fizemos hoje e até correu muito bem. Vamos manter este quadro até que todas as crianças consigam dominar plenamente o seu auto controle. 2 - Recomeçar o diálogo com os pais das crianças que ainda não conseguem viver em grupo. Outra tarefa difícil, mas imprescindível, pois só aliando forças é que conseguiremos trazer estas crianças ao grupo. Também já comecei... Sabem, é muito difícil ter que dizer a um encarregado de educação, que ama o seu filho mais do que tudo, que o caminho que está a seguir não é de forma nenhuma o mais adequado para ele. Por vezes esta postura até nos traz alguns dissabores... Seria mais cómodo fingir que está tudo bem e deixar correr... Mas é de crianças que estamos a falar, é o futuro que estamos a formar e deixar correr não é de forma nenhuma a melhor aposta. 3 – Criei o “cantinho de pensar”, e quando algum deles começa a perder o controlo, tem que se sentar, que descansar e pensar nas suas atitudes. E acreditem que hoje já houve quem lá dormisse uma “soneca”, porque muito do descontrolo destas crianças tem a ver com o cansaço e com a sua falta de sono. Hoje o dia correu melhor, com mais ordem, cheio de surpresas e de coisas boas… Correu melhor, sem sobressaltos. Vamos esperar que a nova semana que está para chegar seja uma semana rica em aprendizagem e felicidade…

10 comentários:

Gabriela disse...

Bem Luz...a experiência vale ouro. As tuas palavras refletem muito daquilo que penso e sinto. Tenho a certeza que tu e as tuas estrelinhas vão encontrar o caminho mais "brilhante" para seguirem em frente. Bjs
Gabriela

Maria da Luz Borges disse...

Gabriela
Muito obrigado pelas tuas palavras e pelo teu apoio... Quanto às estrelinhas do momento... Ainda não me iluminam o caminho, mas garanto que antes do final do ano, limpo o caminho e deixo a luz penetrar plenamente. E são lindas estas estrelinhas!... Algumas ainda não conseguem tirar partido da sua luz, mas vão á chegar!
Um bom fim de semana!

Fernando disse...

Pois é...como pai (encarregado de educação),compreendo muito bem esta nova maneira de estar, e essencialmente de sentir. Posso dizer, sem qualquer vergonha, que já tivemos uma dessas conversas! O pai, a mãe e a Maria da Luz. E penso que resultou...aliás tem sempre de resultar. Só assim podemos desenvolver um trabalho que um dia venha a dar frutos. Como digo muitas vezes, a Escola não é um mundo onde só entra a criança, a professora, e a auxiliar. Isto é uma escola! mas a Escola, essa tem de ter o pai e a mãe, os irmãos, e todo o ambiente que rodeia a criança. Claro que o amor pelos nossos filhotes pode conduzir a que nem sempre seja fácil aceitar algumas observações ou criticas! Para não se sentir tão só, quando as tiver de anunciar, lembro-lhe uma frase do Miguel Esteves Cardoso: "O frio torna as paisagens mais nítidas. O calor esborrata-as."

Maria da Luz Borges disse...

Pai Fernando
Muito obrigado pelas suas palavras e pela frase do Miguel Esteves Cardoso, muito sábia e verdadeira(Vou registá-la). Sem dúvida que a nossa conversa resultou. Tal como lhe disse o Santiago já há muito que mudou de postura na sala de aula. Ele e o Tomás. Têm-me surpreendido muito e pela positiva. É isto que acontece quando a escola e a família unem forças para ajudar as suas crianças a desenvolver plenamente todas as suas potencialidades. E quando penso neles e em todas as outras crianças do grupo, fico comovida. Eles são um dom e eu tenho muita sorte por poder estar diáriamente com eles. Este é um grupo diferente dos que sempre tive em Valejas... É um grupo agitado e que não me dá tréguas, mas isso não é forçosamente mau, pelo menos para mim, pois obriga-me a mexer, a sair do marasmo e a afinar estratégias, a adaptar-me e a reeniciar. O que me zangou na quinta feira foi o facto de uma das crianças, que vinha cheia de sono e portanto implicativa e muito agressiva para com os pares,me ter, num dos seus momentos de descontrole, dado um "estalo", involuntário, bem sei, porque esta criança, que é grande e tem uma força imensa e tem também um historial de vida muito complicado, tem, quando se descontrola, um descontrolo dos membros que me assuta. E o "estalo" que era destinado ao Santiago e que me apanhou quando tentava acudir a situação, foi de tal forma violento, que me partiu os oculos e me fez rebentar o sangue do nariz, a mim que sou grande e bem gordinha... Imagine que tinha atingido o seu filho, ou uma criança das mais pequenas, como o Guilherme Palma, ou o Rodrigo Dias. compreende agora a razão da minha zanga... Isto não pode continuar a acontecer. Isto é um risco que eu não quero correr. Mas também não há nada a fazer, porque o encarregado de educação, quando chamado à razão tem duas atitudes. Uma é dizer que acha que a organização da sala tem que mudar porque o menino não gosta dela como está, não gosta de estar no tapete, não gosta de vestir a bata, não gosta de trabalhar, nem gosta dos outros meninos e ele, encarregado de educação, não gosta que o meninos chore. Pois eu digo aqui e bem alto. Este encarregado de educação vai chorar muito. Não agora mas daqui a dois ou três anos e depois já vai ser muito tarde... Olhe Fernando, a conversa vai longa e eu vou continuar como mensagem e não como comentário... Assim descanso também os outros pais...

Rita Brito disse...

No ano passado também tive de recorrer a um mapa do comportamento de grupo, embora continue a não gostar da ideia, no entanto pareceu-me o mais indicado, dado o comportamento do momento de todas as crianças. Todos os dias conversávamos em grande grupo sobre o comportamento de cada um e cada um fazia a sua auto-avaliação. No final da semana era enviado um relatório para casa. No final do ano o "saldo" foi muito positivo: as crianças aprenderam a refletir, a estar em grupo, a ter respeito pelo próximo e os pais também refletiam com os filhos sobre os seus atos "bons e maus".

Rita Brito disse...

No ano passado também tive de recorrer a um mapa do comportamento de grupo, embora continue a não gostar da ideia, no entanto pareceu-me o mais indicado, dado o comportamento do momento de todas as crianças. Todos os dias conversávamos em grande grupo sobre o comportamento de cada um e cada um fazia a sua auto-avaliação. No final da semana era enviado um relatório para casa. No final do ano o "saldo" foi muito positivo: as crianças aprenderam a refletir, a estar em grupo, a ter respeito pelo próximo e os pais também refletiam com os filhos sobre os seus atos "bons e maus". Parabéns pela tua reflexão e pela tua forma de atuar com as crianças. Tenho a certeza que elas vão ser melhores seres humanos graças a ti.

M. Jesus Sousa (Juca) disse...

Ainda bem que as coisas começam a progredir. Ainda bem que há pais que tem a coragem de "dar a cara", de refletir, de concordar que é necessário mudar, de apoiar a educadora dos seus filhos. Por isso, os meus parabéns Sr. Fernando!

Quanto aos chamados "mapas de comportamento" não são necessariamente maus. Eu uso, há já alguns anos, o meu sistema da "luzinha do coração" e temo-nos dado muito bem assim lá pela "sala fixe"...

Vá lá, ânimo e continuação de bons progressos!

Bjs, Juca e Sala Fixe

Maria da Luz Borges disse...

Juca, não havia hipoteses de não progredir... não havia hipoteses de ficar a lamentar... com as crianças há que fazer e não que falar... Não se pode esperar, tem que ser logo... E ainda bem que há muitos pais interessados e dispostos a apoiar. São eles o nosso apoio e conforto.

Ana Peixoto disse...

Professora, Maria da Luz,

temos colocado exposto, no quarto do João, a pedido dele, os mapas de comportamento da escola.

É ele que me vêm entregar, todo orgulhoso!

Fico feliz por saber, que a nossa educação (minha e sua), está a ter bons "frutos".

Obrigada,

Ana Peixoto (Mãe do João António)

Quina disse...

Colega
Gostei muito da sua partilha e do texto com as regras para criar filhos
delinquentes. Tomei a liberdade de o copiar para postar no blog do JI onde trabalho, porque me parece muito importante partilhá-lo com os EE das crianças da minha sala. Assinalo o local de onde o retirei.
Admiro a franqueza e a assertividade com que conseguiu expor a situação. Desejo-lhe bom ano de trabalho e obrigada por tudo o que tem partilhado.