terça-feira, 14 de maio de 2013

"Nascer e Morrer" no Jardim de infância


.Eis um tema desagradável, que nos assusta e que gostamos de evitar. Também eu procuro não pensar nisso, mas inevitavelmente, sou empurrada para ele, mais vezes do que  gostaria.
Como falar no assunto a crianças tão pequenas? O que fazer quando o nosso caminho se cruza diretamente com ele? Normalmente escuto, deixo as ideias fluir e as palavras surgir, sem preparações prévias, nem conclusões feitas por antecipação. Deixo-me guiar pelo momento e sigo o coração e a intuição.
Mas porquê este tema no Jardim de infância? Bom, desta vez porque aconteceu ali, mesmo à nossa frente.
Vou-vos contar...
 
Como todos sabem, nós temos dois mandarins na nossa sala, a Luna e o Óscar. E também sabem que eles gostam muito um do outro e que se fartam de namorar...
Namoro de pássaro, já se vê...
 
Ora, deste namoro, surgiram três ovinhos muito pequeninos...
...postos pela Luna e muito bem cuidados pelo pai e por ela, a mãe...
 
E com muito cuidado, nós fomos observando e registando tudo o que estava a acontecer. E na segunda feira... Na segunda feira ouvimos um grande barulho e vimos muitas cascas de ovo no fundo da gaiola. Percebemos logo que tinha nascido um dos passarinhos. Ficamos tão felizes! E nem fomos lá para o pé para não os perturbar. É que nós já estamos a ficar crescidos e já conseguimos muito bem fazer aquilo que é preciso, mesmo quando não nos apetece. 
Na hora do almoço, quando a Goretti foi ao gabinete tirar a bata, viu... Pois foi isso mesmo... Viu o passarinho bebé no fundo da gaiola. Ele tinha morrido e os pais deitaram-no para fora do ninho. O que fazer?
- Deitamo-lo fora e dizemos que nos enganámos e que não nasceu passarinho nenhum. Foi o primeiro pensamento que nos ocorreu. Mas depois...
Depois pensámos melhor... Sim, o passarinho tinha morrido e por muito triste e dura que fosse a realidade, esta é a ordem natural das coisas. Todos os seres vivos nascem e morrem. Toda a vida é um ciclo que tem um começo e um fim. Por vezes é um ciclo longo e por vezes, como neste caso, é um ciclo muito pequeno. Por isso, fui buscar a caixa lupa e coloquei o passarinho lá dentro e, quem quis, pode observá-lo. Garanto-vos que foram imensos e alguns não se limitaram a olhar, mas fizeram muitas perguntas, com muita lógica. Conseguimos ver os olhos, o bico, as patinhas, as asas e até algumas penas (penugem). Eles estavam fascinados...
Depois deitámo-lo numa caixinha de cartão e fomos enterrá-lo no jardim, para que se transforme em alimento para as outros seres vivos.
E assim  se fechou o ciclo desta vida...
Mas história não acabou por aqui. E as perguntas chegaram...
- Porque é que ele morreu, se ainda era tão novo?
- Porque é que não teve tempo de crescer?
Fiquei atrapalhada... Acabei por dar uma daquelas respostas pré fabricadas e disse-lhes que certamente tinha alguma doença ou qualquer coisa assim que não o deixou viver...
E como não podia deixar de ser, o desastre  da resposta pré fabricada, foi completo..
- Então isso quer dizer que, quando ficamos doentes, podemos morrer?
E agora como sair daqui? - Perguntei-me  em pânico.
Salvou-me o Afonso Rodrigues (ainda bem que eles andam sempre por perto...) que respondeu prontamente que tinha visto um episódio de "Era uma vez a vida", em que tinha aprendido que no nosso sangue há uns "globus" brancos que são os sentinelas do corpo e nos salvam dos vírus e dos "mircóbios". E foi mais longe ao explicar que o passarinho deve ter morrido porque era muito pequenino e os "globus" brancos ainda não estavam a funcionar muito bem. 
A resposta parecia estar muito certa e contentou os colegas... Uffff... Que alívio!
E agora... Agora temos andado a pesquisar. Hoje vimos o episódio de que o Afonso falou e consultámos muitos livros. Os "globus" brancos estão na ordem do dia e sabe-se lá até onde é que isto nos pode levar...
Fiz bem? Fiz mal? Ainda não sei. Já estou farta de pensar sobre o assunto e ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Teria sido mais fácil tirar o passarinho da gaiola e deitá-lo fora sem dizer nada, mas teríamos perdido uma belíssima ocasião de experimentar a vida num dos seus aspetos mais duros e mais difíceis de ultrapassar, mas também um daqueles com que todos nós, mais cedo ou mais tarde, durante a nossa vida, nos vamos deparar...
 

9 comentários:

cornelia13 disse...

Dear Marialuz,
Congratulations for your creative and emotional work!
Hugs and kisses,
Cornelia

Maria da Luz Borges disse...

Thank you so much, my dear friend!

Unknown disse...

Boa tarde Maria da Luz,
Estamos muito orgulhosos do nosso filhote Afonso Rodrigues pela ajuda prestada e abordagem desenvolvida ao tema.
Na nossa opinião a Maria esteve muito bem em mostrar aos pequenotes a realidade da vida.

Cumrpimentos,
Paulo Rodrigues

Lúcia Curopos disse...

Olá Maria da Luz,
Acredito que fez o melhor, porque no meu entender devemos dizer sempre a verdade e na medida do seu entendimento as crianças conseguem assimilar de uma forma positiva este assunto. Eu própria, com os meus meninos, todos os anos faço o funeral das borboletas do bicho da seda porque é o ciclo da vida que se completa e temos de lhe dar uma explicação...Com este ritual anual , as crianças encaram com naturalidade este assunto tão delicado. Também temos um hamster ( já com idade avançada para a sua espécie) e qualquer dia o mais natural é o que o encontremos morto na gaiola. Apesar de gostarmos muito dele, já sabemos que um dia chegará a hora de nos deixar...
Bjs e continuação do ótimo trabalho

Gabriela disse...

Olá Luz, por vezes tentamos escapar-mo-nos mas não dá mesmo e é bem melhor assim, pelo menos eu acredito nisso. bjs e boas descobertas

Rute Santos disse...

Esta a fazer um ano e não esqueço a sua ajuda......e a Inês tambem não.

Beijo grande

Teresa Rebelo disse...

Luz, atitude correta!
Parabéns pelo teu trabalho e aos meninos por terem uma "Luz" junto deles!!
bjs grandes nossos

Fernando disse...

Penso que são assuntos que mais cedo ou mais tarde tocam a todos...e por vezes de forma muito violenta. Por isso nada melhor que preparar estas crianças para encarrar tudo com naturalidade e racionalidade. Parabéns Luz, e obrigado.

Alda disse...

Adorei a forma como decidiste abordar a coisa...também teria ido por esse caminho. Aliás, como diz a Alice, agora ele vai fazer chuva, sol e arco-íris, pois foi ser uma estrela e passou a trabalhar no céu.