Semanalmente, quando faço a avaliação, costumo escrever aquilo que mais se destacou das actividades ou do trabalho da semana.
Esta semana, aquilo que mais se destaca é, sem dúvida, o "salto" que o Ibraíma deu, no seu relacionamento com os adultos e com os pares.
O Ibraíma, de 5 anos, está na nossa sala desde os três. Chegou da Guiné Conacry, sem dominar uma única palavra de Português. Tinha a sola dos pés calejados, como quem está habituado a correr em liberdade e, assim que chegava à sala, tirava os sapatos, as meias e as calças e saltava pela janela, como se o espaço da sala de aula fosse demasiado pequeno para ele.
Como não conseguia comunicar, chorava e batia nos outros meninos... Que difícil foi!
Pouco a pouco, com muita paciência, muito carinho e a ajuda dos amigos, começou a comunicar mas, como em casa só se fala "fula", um dialecto tribal,a aprendizagem da língua tem sido muito complicada.
O Ibraíma é uma criança instável e um bocadinho agressiva. Tem uma fraca auto estima e raramente está feliz. Quer sempre ser o primeiro e o único e, se lhe digo que não, e muitas vezes tenho que lhe dizer, porque a vida também é composta de nãos, fica insuportável.
Já começava a desesperar de conseguir uma integração plena, quando chegou o nosso milagre. Chama-se Carlos,é multideficiente e depende totalmente de nós, pois não fala, não se senta, vê mal, não se mexe sozinho, não controla os esfinctares e é alimentado por sonda.
Quando o Carlos chegou, lembrei-me que esta podia ser a oportunidade ideal para que o Ibraíma se sentisse indispensável. Assim, propus-lhe que fosse o padrinho dele e expliquei-lhe que o padrinho é aquele que ajuda, que cuida e que nunca pode abandonar. Ouviu com muita atenção, adorou a ideia e leva-a muito a sério. Pouco a pouco foi perdendo a sua agressividade e até já fala um bocadinho melhor. Tem-nos estado a ensinar Fula e parece outra criança,pois está muito mais crescido e responsável. E ontem...
Ontem o milagre funcionou... O Carlos não veio e eu, para ocupar o Ibraíma, pedi-lhe ajuda. Ele sentou-se ao pé de mim e, vindo do nada, começou a contar como era a sua casa em África, como era pequena, não tinha chão, nem casa de banho, que perto havia um rio pnde moravam muitos corcodilos e muitas, muitas coisas...
Foram precisos três anos, carradas de paciência e um menino deficiente profundo a necessitar de ajuda, para finalmente o ver aberto, seguro e feliz!!!
Perguntei-lhe se queria contar estas coisas aos amigos. Respondeu que não. Há que esperar e respeitar...
Espero que ele o consiga fazer. Acho que lhe ia fazer bem... O que será que o impede?
E se ele contar, tenho a porta aberta para, com eles, explorar o mundo e os povos que nele vivem.
"Vamo vê...", como diz o Alex de 3 anos.
Por agora, tudo o que quero é que eles, todos eles, sejam felizes!!!