quinta-feira, 8 de abril de 2010

Morrer é...



Aqui está um tema que nenhum de nós gosta de tocar. Porém este é um tema que todos nós temos que enfrentar de vez em quando.
Eu não tinha muito boas recordações do tema pois, há um anos tinha tido uma experiencia que não tinha sido muito positiva. Desse tempo ficou a certeza que perante esse acontecimento inevitável da vida humana, mais do que falar, tentar consolar, tentar perceber, é preciso esvaziar o coração e escutar.
Foi assim que, um dia destes, o tema me bateu de novo à porta...
Durante a manhã, uma das crianças entrou na sala, e quando eu me aproximei para lhe dar as boas vindas, ela olhou para mim e disse:
- Luz, sabes que vais morrer de cancro!
Fiquei sem palavras e respondi sem grande delicadeza, e sem pensar:
-Credo rapaz! Deseja-me boa sorte e bate três vezes na madeira!
Olhou para mim com um ar condescendente e incrédulo e continuou: - Sabes, é que o cancro mata mesmo! A minha avó morreu ontem. Foi muito triste, tão triste que o meu Pai até chorou...
Fiquei estarrecida e sem palavras. Mais me valia fechar a boca e não dizer mais nada... O que fazer, o que dizer?
Peguei-lhe ao colo e só consegui dizer que ele tinha razão, que era mesmo uma coisa muito triste!
Então ele olhou-me nos olhos e disse: -Sim é triste porque eu acho que nunca mais a vou ver, mas também já percebi que morrer é um bilhete de entrada no céu...
Fiquei completamente muda, sem palavras. Onde é que aquela criança, tão pequenina, tinha ido buscar todas aquelas certezas? O que é que aquilo significava para ele!
Entretanto um dos amigos chamou-o para brincar e a conversa ficou por ali. Parecia esquecida e eu respirei de alívio.
À tarde veio sentar-se ao pé de mim e perguntou: - Luz, sabes desenhar um avião?
-Mais ou menos - respondi sem grande empenho.
-Desenhas-me um, no quadro?
-Posso desenhar, mas olha que é capaz de não ficar nada de especial. - E pegando no giz, lá fiz um avião.
Ele foi buscar uma folha e desenhou uma fila de aviões. Um por cada membro da família. Depois chamou-me e disse: -Já aqui estão os nossos aviões para podermos ir visitar a minha avó. Mas o do meu avô já não cabe. Ele pode levar o teu? Sabes ele também tem muitas saudades da avó!
Como resistir a tanta inocência?
Só posso dizer como Saint Exupery:
" Em meu céu só haverá olhares de cinco anos, pois não há nada mais belo que o olhar inocente duma criança!"

4 comentários:

rosarinho disse...

Olá Luz.
Que bonito o teu post!
A morte é um tema que parece muito complicado, mas com que se aprende a lidar, especialmente se já passámos por essa situação de perda. Sabemos que dói, mas que o tempo ajuda a que doa um pouco menos cada dia.As crianças têm uma boa capacidade de lidar com essas situações e só precisam que estejamos presentes para as ouvir e lhes oferecer um colinho amigo.
bjs da Rosarinho

Isabel Preto disse...

Realmente, isso é algo que nos custa a enfrentar...e explicar aos pequeninos,pior...

Gabriela disse...

Olá Luz, realmente este é um dos temas que não é muito fácil de abordar para nós adultos. Tento sempre abordá-lo de uma forma natural quando surge...e tem corrido razoavelmente bem com os meninos. Creio que como nós adultos temos outra percepção deste acontecimento acaba por ser mais simples para as crianças ...isto não quer dizer que seja menos doloroso para elas
Beijinhos

Xinha disse...

Olá Luz
Sabemos bem que a morte é a dor da separação e que as pessoas que partem nos fazem a cada dia mais falta quanto mais próximas nos são.
Sabemos também que o tempo nem sempre ajuda...pelo contrário...as saudades vão crescendo dia após dia e a única coisa que o tempo faz é com que nos habituemos à ausência.
Sabemos também que a morte não é o fim de nada mas o príncipio de tudo.
Há quem diga que nos deviamos sentir felizes já que acreditamos nisso e ficamos, muito felizes, mas muito tristes também...como ficariamos felizes se quem amamos fosse para o outro lado do mundo para ter uma vida excelente mas tristes por deixar de estar junto de nós.
Um abraço da Xinha