
Aqui está um tema que nenhum de nós gosta de tocar. Porém este é um tema que todos nós temos que enfrentar de vez em quando.
Eu não tinha muito boas recordações do tema pois, há um anos tinha tido uma experiencia que não tinha sido muito positiva. Desse tempo ficou a certeza que perante esse acontecimento inevitável da vida humana, mais do que falar, tentar consolar, tentar perceber, é preciso esvaziar o coração e escutar.
Foi assim que, um dia destes, o tema me bateu de novo à porta...
Durante a manhã, uma das crianças entrou na sala, e quando eu me aproximei para lhe dar as boas vindas, ela olhou para mim e disse:
- Luz, sabes que vais morrer de cancro!
Fiquei sem palavras e respondi sem grande delicadeza, e sem pensar:
-Credo rapaz! Deseja-me boa sorte e bate três vezes na madeira!
Olhou para mim com um ar condescendente e incrédulo e continuou: - Sabes, é que o cancro mata mesmo! A minha avó morreu ontem. Foi muito triste, tão triste que o meu Pai até chorou...
Fiquei estarrecida e sem palavras. Mais me valia fechar a boca e não dizer mais nada... O que fazer, o que dizer?
Peguei-lhe ao colo e só consegui dizer que ele tinha razão, que era mesmo uma coisa muito triste!
Então ele olhou-me nos olhos e disse: -Sim é triste porque eu acho que nunca mais a vou ver, mas também já percebi que morrer é um bilhete de entrada no céu...
Fiquei completamente muda, sem palavras. Onde é que aquela criança, tão pequenina, tinha ido buscar todas aquelas certezas? O que é que aquilo significava para ele!
Entretanto um dos amigos chamou-o para brincar e a conversa ficou por ali. Parecia esquecida e eu respirei de alívio.
À tarde veio sentar-se ao pé de mim e perguntou: - Luz, sabes desenhar um avião?
-Mais ou menos - respondi sem grande empenho.
-Desenhas-me um, no quadro?
-Posso desenhar, mas olha que é capaz de não ficar nada de especial. - E pegando no giz, lá fiz um avião.
Ele foi buscar uma folha e desenhou uma fila de aviões. Um por cada membro da família. Depois chamou-me e disse: -Já aqui estão os nossos aviões para podermos ir visitar a minha avó. Mas o do meu avô já não cabe. Ele pode levar o teu? Sabes ele também tem muitas saudades da avó!
Como resistir a tanta inocência?
Só posso dizer como Saint Exupery:
" Em meu céu só haverá olhares de cinco anos, pois não há nada mais belo que o olhar inocente duma criança!"